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Legitimuz Day 2026: IA pode ser aliada decisiva na identificação de apostadores problemáticos

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O uso de inteligência artificial para identificar apostadores em situação de risco antes que o problema se agrave é uma das grandes apostas do setor regulado de jogos no mundo. Para Chandeni Sendall, membro do conselho do Nevada Gaming Control Board (GCB), a tecnologia representa uma oportunidade concreta de antecipar comportamentos compulsivos, especialmente no ambiente online. “Tenho muita esperança de que nossa regulação possa usar a IA para identificar as pessoas em risco, principalmente em bets online, executadas em smartphones”, declarou a executiva. “Identificando usuários problemáticos em potencial, podemos tratá-lo em um estágio mais inicial, evitando o gasto de milhares de dólares em tratamento, deixando de impactar sistemas de saúde”, afirmou Sendall. A afirmação foi feita durante o painel “Um debate franco sobre boas práticas internacionais de jogo responsável”, realizado no Legitimuz Day 2026, evento promovido pela Legitimuz em São Paulo e que une os setores público e privado em discussões relevantes para o setor de apostas do Brasil e do mundo.

Chandeni Sendall, membro do conselho do Nevada Gaming Control Board (GCB)

Tecnologia como ponto de partida, não como destino

Se há consenso sobre o potencial da inteligência artificial, os painelistas também foram unânimes em apontar seus limites. Daniel Xavier, COO da BetMGM Brasil, destacou que a empresa herdou um sistema proprietário robusto de KYC, com ferramentas de autoexclusão, limites de depósito e controle de sessões, mas que a tecnologia sozinha não basta. “A IA ajuda na leitura melhor da massa de dados e deve ser usada para rotinas automatizadas. Mas o componente humano consegue perceber melhor o comportamento problemático que passa ileso pela IA. Durante a interação com o cliente, o elemento humano pode perceber algo errado baseado em um pedaço de informação”, explicou Xavier.

Daniel Xavier, COO da BetMGM Brasil

A visão é compartilhada por Leonardo Carriço, psiquiatra colaborador do PRO-AMITI da USP. Para o especialista, o papel da IA na saúde mental dos apostadores deve ser de detecção, e não de abordagem direta. “A IA pode sinalizar um risco, mas a sequência disso deveria ser uma abordagem humanizada”, defendeu Carriço. O psiquiatra ainda ressaltou que ferramentas construídas para identificar perfis problemáticos seriam extremamente úteis no combate à ludopatia, mas alertou para um gargalo brasileiro: “O desafio é que, por enquanto, faltam centros qualificados para tratar essas pessoas no Brasil.”

A experiência internacional reforça o equilíbrio entre IA e fator humano

Bob Michniak, Associate Director do RG Check, programa de acreditação em jogo responsável do Responsible Gambling Council de Ontário,no Canadá, trouxe exemplos práticos. “A abordagem humana jamais será substituída pela IA. Nas Filipinas, por exemplo, a comunicação com os clientes se dava por emojis, algo que a IA não compreende”, ilustrou Michniak. Ele destacou ainda que existe uma área cinza entre o que a IA sinaliza como sugestão de comportamento problemático e o que, de fato, é problemático. “Em Ontário, focamos no resultado, mas não dizemos ao operador se ele deve ou não usar IA para abordar jogadores problemáticos. Damos uma orientação”, explicou.

Bob Michniak, Associate Director do RG Check

Chandeni Sendall reforçou a mesma linha. Para a reguladora de Nevada, a inteligência artificial deve assumir tarefas operacionais e de triagem inicial, mas não substituirá o julgamento humano nos casos mais sensíveis. “A IA não substituirá a gerência, mas deve substituir as tarefas mais de entrada, mais manuais. Para tratar usuários mais problemáticos, o ser humano é insubstituível”, afirmou.

Autoexclusão: a prática mais eficaz já está no Brasil

Além do debate sobre IA, o painel destacou a autoexclusão como a medida de proteção ao jogador mais eficaz disponível atualmente. Leonardo Carriço foi direto: “A medida de proteção ao jogador que mais funciona é a autoexclusão.” O psiquiatra sugeriu ainda outras iniciativas que poderiam ser adotadas no Brasil, como vincular limites de gasto à declaração de Imposto de Renda do apostador e implementar restrições de horários para apostas.

Bob Michniak elogiou o fato de o Brasil já contar com um sistema centralizado de autoexclusão – algo que, em Ontário, levou quase quatro anos para ser implementado. “A autoexclusão é algo incrível. No Canadá, é possível se autoexcluir simultaneamente de todas as plataformas, mas isso levou muito tempo para reunir e implementar”, contou. Nos Estados Unidos, segundo Sendall, já existe um registro nacional de autoexclusão.

Daniel Xavier aproveitou para reforçar que esse tipo de debate só é possível dentro do mercado regulado. “É necessário fortalecer a regulamentação, já que esse debate só é possível no mercado regulado. É preciso criar um cenário melhor do que tínhamos antes em relação ao combate às bets clandestinas”, afirmou o executivo da BetMGM Brasil. Xavier também fez um alerta: “É preciso reforçar que jogo é apenas entretenimento e não uma forma de investimento. O mercado ilegal só piora isso, com o uso de influenciadores, por exemplo.”

Leonardo Carriço, psiquiatra colaborador do PRO-AMITI da USP

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O painel encerrou com um tom de otimismo cauteloso. Com quase um ano e meio de mercado regulado, o Brasil já adota práticas reconhecidas internacionalmente, como a autoexclusão centralizada, mas ainda estuda como incorporar o uso de inteligência artificial como ferramenta complementar de proteção ao apostador. O desafio, como ficou claro nas falas dos especialistas, é garantir que a tecnologia trabalhe a favor do jogador sem substituir o olhar humano, especialmente nos casos em que a saúde mental está em jogo.

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